Conto Premiado

"45 Minutos"
- TERCEIRO LUGAR, CATEGORIA CONTO - CONCURSO DELICATTA III - Leia o texto.

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Pensamento avulso, incolor


Anestesia. Pensamentos vagos, inexistentes talvez. Um corpo em movimento, uma mente em total inércia. Por entre os dedos escapa-lhe o controle, a soberania. Enquanto que a sua frente apenas imagens distorcidas e sons silenciados. Nada chega, nada se vai. Tudo some e tudo reaparece. Entre cada ponta existe o vazio. De mãos dadas com a aparente duvida, caminha a diante, sempre reto, mesmo nas curvas. Vagueia por pesadelos, se ilude com sonhos descontínuos.

Anestesia. A alma paralisada pela falta de argumentos.

Alexandre C. Martins – 12 de novembro de 2009

Da agonia II


Há ainda aquele ar sinistro
Talvez escondendo a mentira
Ou sabotando a verdade
Dando margem ao pensamento vil

Palavras proferidas sem cautela
Amores submersos na dúvida
Afogando-se em agonia
Gritando sem a atenção requerida

Conspiração ou a inevitável melancolia?
Quantos são os verbos úteis nessa ira
Se bem o sabe o silêncio ser a resposta
E o sofrer a conseqüência inevitável

Inda assim a incompreensão reina
A ferida se alastra sorrateira
Por entre matas já conhecidas
Cada lágrima é uma nova ferida

No peito aberto chora a alma recolhida

Alexandre C. Martins – 05 de novembro de 2009

Da agonia


Noite longa, penetrante, angustiante
Segundos passam, arrastam , arranham
No peito o tambor incessante batuca
E na alma a vibração de uma triste luta

Noite curta, sem lua, quase nula
Horas correm, na desordem a fúria
Num olhar a tocaia se aprimora
O piscar de olhos tudo engloba

Passatempo, brinquedo quebrado
Mãos trêmulas, coração agitado
Pensamento a mil por hora, embalado
Segue o ritmo da desconfiança, não paga fiança

Mas logo...

O silêncio tudo devora, assola
Morre a noite, solitária, empedrada
Olhos abertos, atentos, temerosos
Segue o dia, acanhado, preocupado.

Onde estará você agora?

Alexandre C. Martins – 02 de novembro de 2009

Remorso

Sombras entre postes de luz,
Vontade contrariada que a ação conduz
Momentos, eventos, tentativas
Nada, além de um sorriso amargo

com a bala recém disparada
em minha direção
Da agua pro vinho?
ou do vinho pra agua?
sem milagres,
A mudança brinca euforica
Girando em torno da retorica

eu apenas disfarçando, no sorriso de espanto,
a alegria, que jamais conseguiria
no remoso que me cercava

Alexandre C. Martins - 01 de novembro de 2009

Enfim...


Se chover, molha-me o rosto
Esconda a lágrima insistente

Deixa-me anuviar a dor
Mascará-la de cor

Mesmo que não suficiente
Dá-me a música necessária

Os passos da dança não recordo
Inda bailo no entardecer e espero...

A chuva tornar-se apenas água
E minhas lágrimas guarda-chuva

Alexandre C. Martins - 24 de agosto de 2009

Acorda!

A noite segue a finada lua, a luz do poste apaga
Da janela a calmaria observada - almas mortas pelo chão

Berra o sino matinal, o galo morre, resta a carcaça depenada
Com sentido ou não, acorda o homem, dorme o cão

Fogo trabalha, ferve a água. Nas mãos a força falta, retarda
Fumaça anuviada, aroma penetrante - enche o copo mais adiante

Suave sabor amargo, tanto quanto o ganha pão diário
Desespero, estômago apertado, amarra o sapato, veste o salto

Abre-te porta, nada vai entrar, o caminho é do avesso
O tic-tac não pode parar, atropela o que vê, devora a ossada

Lâmpadas ganham força, manhã escura, quase sem graça
O povo arreda pé de casa, a rua grita sufocada, piedade clama o chão

Ronca motor, mostra a dor, latente e itinerante.
Sobe e desce, aperta e encosta. Segura firme ou perde a sacola

O dia é realidade, o sol brilha quase na metade
Segue solta a alienação, sem dó nem perdão

O cachorro ainda dorme, deixa a festa para as pulgas
Logo mais a noite chega, desesperada e incontrolada

Como que desanimada, agora mede as passadas
Volta o homem ao cafofo, dorme logo que a noite dura pouco

Alexandre Cesar Martins - 10 de agosto de 2009

Escrito por Fernando Padilha

Alexandre - personagem real, baseados em fatos fictícios


Em momentos de crise, não se desespere, pegue o feno e comece a limpar o celeiro! Pense positivo, se você tivesse que encontrar uma prova que te incriminasse e ela fosse do tamanho de um alfinete e estivesse no meio de quilos de feno, poderia ser bem pior. E com este incentivo ele saia da cama, saltitando como saci Pererê, cambaleando como um poeta desempregado e sorrindo como uma hiena no cio.
Para ele estas palavras serviam como incentivo, seu nome era Alexandre. Um latino americano perdido entre seus livros e lamúrias, que se confessava diariamente em seu blog que ninguém lia e sempre na companhia de seu único rim, doado por seu pai, que por sinal, não fala mais com ele há meses depois que descobriu sua preferência sexual!
Sem dinheiro nem pro cigarro, que ele tanto tenta deixar de lado para sempre, mas sua técnica para lidar com a abstinência não é eficaz, compra sempre o mais caro e pomposo box, que não tem diferença do maço, mas sempre é R$0,50 mais caro, e repetia consigo mesmo”Este será meu último”...Então ele fumava com tanto afinco e degustando cada tragada, que acabava se apaixonando mais ainda por este vício.
Mas quem não tem um vício? Se for para ter um vício que seja um que não mate, certo?! Todavia os que não matam não tem sentido, não tem graça e não tem perigo! E a vida já é muito tediosa para perder tempo com coisas sem risco iminente ou futuro!
Falando no futuro, o que seria desse Alexandre, que após acordar e não ter seu cigarro, pegava o último saco de café que guardava com tanto receio em seu armário, ah, o café, ele não vivia sem! Precisava de café para tudo, para levantar, para pensar, para preencher os intervalos e até para ir ao banheiro...Bom, esta última necessidade é porque ele precisava se desfazer de tanto líquido.
Alexandre vivia sua vida tranqüilamente num apartamento na capital, sozinho e zeloso em seu próprio mundo, entre quatro paredes se sentindo um defunto num caixão, trabalhava meio período como técnico em Autocad, um programa que tem nome de joguinho pra estacionar carros, mas acreditem a única coisa que ele era milimetricamente preciso, e altamente eficaz, era fazendo uma planilha no Excel. Nunca conheci ninguém tão bom em montar planilha no Excel.
Inclusive graças a esta habilidade que eu conheci Alexandre. Foi em Canelinha, uma cidade longe de tudo e perto de São João Batista, conhecida como a cidade dos calçados, talvez por isso que diziam que em Canelinha o diabo perdeu as botas. E não haveria outro lugar para encontrar o próprio Alexandre. Ele trabalhava comigo numa empresa de família que não era a máfia, e talvez por isso não ia tão bem. De qualquer forma, ele descobriu que podia ter engravidado uma mulher, senhora já, e por isso eu acabei o ajudando...Apoiando sua decisão de fazer o DNA claro, já que todo mundo é inocente até que se prove o contrário.
O desfecho do amor de Alexandre é mais complicado que seus vícios. Eu explico porque: Alexandre era viciado em sofrer por amor! Adorava estampar nas tomografias seu coração partido, adorava contar nos dedos os amores desfeitos, usava tudo isto como desculpa e ainda por cima descobriu que gosta é de homens...Talvez ele tenha escolhido o caminho mais difícil, mas talvez ele tenha sido ele mesmo, um sofredor latino americano de coração partido, de passos errantes, confuso com o próprio calendário e que acordava para ir ao trabalho em pleno feriado...
E assim termino esse epitáfio, porque vomitei tudo, como Alexandre teria vomitado, nem a gramática o endireitava, nem a moda da anorexia vencia sua nostalgia de ser depressivo. Descanse em paz no seu túmulo, localizado no limite continental desse Estado.

Por Fernando Padilha