Conto Premiado

"45 Minutos"
- TERCEIRO LUGAR, CATEGORIA CONTO - CONCURSO DELICATTA III - Leia o texto.

Novidades

Acabo de fazer uma reforma no layout do blog. Agora os frequentadores poderão deixar recados no Mural de Recados, ou enviar mensagens privadas para meu e-mail diretamente do site. Tudo isso na barra lateral. Espero que gostem!

***

Escrito por Fernando Padilha

Alexandre - personagem real, baseados em fatos fictícios


Em momentos de crise, não se desespere, pegue o feno e comece a limpar o celeiro! Pense positivo, se você tivesse que encontrar uma prova que te incriminasse e ela fosse do tamanho de um alfinete e estivesse no meio de quilos de feno, poderia ser bem pior. E com este incentivo ele saia da cama, saltitando como saci Pererê, cambaleando como um poeta desempregado e sorrindo como uma hiena no cio.
Para ele estas palavras serviam como incentivo, seu nome era Alexandre. Um latino americano perdido entre seus livros e lamúrias, que se confessava diariamente em seu blog que ninguém lia e sempre na companhia de seu único rim, doado por seu pai, que por sinal, não fala mais com ele há meses depois que descobriu sua preferência sexual!
Sem dinheiro nem pro cigarro, que ele tanto tenta deixar de lado para sempre, mas sua técnica para lidar com a abstinência não é eficaz, compra sempre o mais caro e pomposo box, que não tem diferença do maço, mas sempre é R$0,50 mais caro, e repetia consigo mesmo”Este será meu último”...Então ele fumava com tanto afinco e degustando cada tragada, que acabava se apaixonando mais ainda por este vício.
Mas quem não tem um vício? Se for para ter um vício que seja um que não mate, certo?! Todavia os que não matam não tem sentido, não tem graça e não tem perigo! E a vida já é muito tediosa para perder tempo com coisas sem risco iminente ou futuro!
Falando no futuro, o que seria desse Alexandre, que após acordar e não ter seu cigarro, pegava o último saco de café que guardava com tanto receio em seu armário, ah, o café, ele não vivia sem! Precisava de café para tudo, para levantar, para pensar, para preencher os intervalos e até para ir ao banheiro...Bom, esta última necessidade é porque ele precisava se desfazer de tanto líquido.
Alexandre vivia sua vida tranqüilamente num apartamento na capital, sozinho e zeloso em seu próprio mundo, entre quatro paredes se sentindo um defunto num caixão, trabalhava meio período como técnico em Autocad, um programa que tem nome de joguinho pra estacionar carros, mas acreditem a única coisa que ele era milimetricamente preciso, e altamente eficaz, era fazendo uma planilha no Excel. Nunca conheci ninguém tão bom em montar planilha no Excel.
Inclusive graças a esta habilidade que eu conheci Alexandre. Foi em Canelinha, uma cidade longe de tudo e perto de São João Batista, conhecida como a cidade dos calçados, talvez por isso que diziam que em Canelinha o diabo perdeu as botas. E não haveria outro lugar para encontrar o próprio Alexandre. Ele trabalhava comigo numa empresa de família que não era a máfia, e talvez por isso não ia tão bem. De qualquer forma, ele descobriu que podia ter engravidado uma mulher, senhora já, e por isso eu acabei o ajudando...Apoiando sua decisão de fazer o DNA claro, já que todo mundo é inocente até que se prove o contrário.
O desfecho do amor de Alexandre é mais complicado que seus vícios. Eu explico porque: Alexandre era viciado em sofrer por amor! Adorava estampar nas tomografias seu coração partido, adorava contar nos dedos os amores desfeitos, usava tudo isto como desculpa e ainda por cima descobriu que gosta é de homens...Talvez ele tenha escolhido o caminho mais difícil, mas talvez ele tenha sido ele mesmo, um sofredor latino americano de coração partido, de passos errantes, confuso com o próprio calendário e que acordava para ir ao trabalho em pleno feriado...
E assim termino esse epitáfio, porque vomitei tudo, como Alexandre teria vomitado, nem a gramática o endireitava, nem a moda da anorexia vencia sua nostalgia de ser depressivo. Descanse em paz no seu túmulo, localizado no limite continental desse Estado.

Por Fernando Padilha

Sensatez


Deitado em uma cama de sonhos avalio o quanto já foi perigosa minha trajetória. De tempos em tempos faz-se óbvia a desventura já vivida, e risadas acabam por brotar instintivamente como que para reafirmar a incoerência e dar asas a novas experiências – um tanto quanto maduras. Indo consigo ir além. Vejo, por exemplo, um significativo avanço na caminhada diária. Na sombra daquela árvore o conforto num dia de verão, mas que no inverno, por deus, congela a alma. Eis a grande contradição – dualidade inevitável. Os dois lados da moeda. E por aí segue algumas outras expressões. Mas o avanço, sim o avanço.
A começar por uma incessante busca por maior compreensão do sentido desta vida. A incógnita que por muitos anos foi causadora de tanta indecisão, e que por outro ângulo incentivadora na busca por novos caminhos. Do catolicismo ao paganismo, derivando destes pra tantos outros e as respostas sempre as mesmas, vindas em palavras diferentes. Até surgir de fato a palavrinha “energias”, da qual nasceu a fortaleza que hoje me cerca. Seja lá o que for – física quântica, sabedoria budista, enfim o que o valha. Aceitar as energias que me cercam foi de fato o ponto final. Não me arrasto mais por empoeiradas igrejas nem faço leituras desgastantes de obras sagradas. Eis que o ciclo se completa e pra mim basta. Somos todos um é uma frase que tem um sentido bastante amplo, mas que hoje é minha religião, minha sabedoria.
E o amor? Ele me encontrará nalguma esquina, reta ou circunferência. Não o busco, não o atropelo, não o confundo com doces ilusões – que só fazem sofrer um coração leigo. Que venha na hora certa. A vida segue sem dificuldades quando isso de fato é aceito e das desilusões apenas a certeza de que o aprendizado ganhou algumas páginas no livro da sabedoria individual. Do passado resta apenas isso. Do futuro um belo ponto de interrogação – desafiador, porém cheio de expectativas. Enfim a cura.
Digo isso tudo por haver apenas a necessidade de formalizar minha descoberta. Descoberta de que não há o que forçar, o que construir sem primeiro ter-se uma fortaleza individual muito bem guarnecida. Hoje os guardas estão de pé diante da entrada, tão atentos que um vento na moita não passaria despercebido. Entretanto, ali dentro, no pátio verdejante, floresce uma força outrora não compreendida. E é nela que se baseia a vivência atual. Há esperança num futuro próspero. Há ferramentas para a continuidade..

Alexandre C. Martins – 30 de julho de 2009

Depressão em cadeia

Seguindo a filosofia da autodestruição não haveria muita saída senão encarar a própria derrota. Uma derrota adquirida pela falta de interesse em toda uma nova realidade – imposta. Os fracos num geral dão asas à imaginação, fazendo dieta à base de depressão e depreciação. Tem-se muito disso por aí. Mas ainda há de se lembrar a coisa toda por partes - mais amplas e detalhadas, fazendo destas um suporte para o entendimento, ou ao menos aceitação. Em pouco tempo pode-se ter a clareza da situação sem desgastar-se demais, sem queimar muitos neurônios.
Imagine então o abismo e a caminhada por sua borda. Olhar pra baixo é tão mais fácil que para cima não é? E que paisagem vertiginosa! A queda, o vento, a liberdade do ato ao alcance de um passo. Mas algo o impede. Esse algo é que é perigoso para a degradação recorrente. Ele é capaz de aniquilar a destruição construída com tanto afinco. Um vai não vai sem fim chamado dúvida.
A dúvida o impede de chegar ao enlace final. O impede por que é assim que o inimigo se apresenta – as novas possibilidades. Não basta cima e baixo, há também o entorno. Talvez não tão prazerosos em uma primeira análise, mas que podem vir a ser. Enfim, a dúvida gera uma guerra interna pro depressivo de carteirinha. Não que este não aprecie uma boa luta interna, claro que sim, e o faz bem, com maestria – num geral sai ganhando e afunda-se ainda mais no travesseiro. Ah, o travesseiro, parceiro de todas as horas. Está sempre ali, pronto pra receber lágrimas e mais lágrimas, pronto para confortar os pensamentos em desordem, oferecendo uma pitada de suntuosidade a depressão.
Travesseiro, abismos, bordas, vento, pensamentos desordenados. Receita perfeita para a autodestruição. Faça uso dela algumas vezes, adoeça, mesmo que só pra si. Torne sua mente um poço de invenções baratas. Complete o quadro com umas baforadas daquele cigarro mentolado vendido em qualquer boteco, e inda uma cachaça para desnortear um pouco mais.

Como é linda a depressão. Não fosse ela um meio para um fim. Literalmente um fim. Que venha a velha canoa completar o trabalho da foice afiada.

Alexandre C. Martins – 29 de julho de 2009

Alexandre Martins

No silêncio do dia,
que eu escuto,
Não sou espada
sempre fui escudo,
e é na coragem que eu
me escondo,
é por ter um rim
que eu bebo,
é andando de lado
que eu me encaixo
é por sonhar acordado
que eu durmo
é por ter um coração
que eu tento
é por não saber morrer
que eu vivo
é por querer chorar
que eu rio
é no escuro da noite
que eu vejo
que por não poder te querer
eu te desejo!

Escrito por Fernando Padilha

Versos dispersos (por: Carmem e Alexandre)

Disperso-me no tempo, espero outros ventos,
Que venha e gire os cata-ventos sobre grandes,
Sinceros sentimentos...

Sentimentos sem ressentimentos, dor sem ardor,
Apenas floreados com ares de primavera, discreta,
Secreta, como sol e lua...

Manhãs dos encontros inesperados, dias ensolarados,
Madrugadas cheias de desejos intensos, beijos
Embriagados com sabor dos apaixonados...

Dispersos tempos, ventos, sinceros sentimentos,
Versos intensos com grande amor envolto
De todo e qualquer sentimento...

Versos dispersos, dispersos versos do agora,
Do aqui, do durante, sem saber do depois,
Do ainda ou para sempre dispersos...

Apenas um devaneio pra variar..

Pedra no Sapato

No caminho as curvas sumiram e a retilínea rotina abraçou a solidão. O fato foi que não houve resistência, apenas uma entrega simples e cadente. Outrora teria ele raciocinado um pouco, ou mesmo parado por cinco minutos para sacudir os sapatos em busca da pedra incômoda - Removê-la não seria tão difícil. Nada como uma boa sacudida pra resolver o problema. Continuou o caminho sem acentos, uma escrita leve e despreocupada, cometendo erros e mais erros sem nem mesmo perceber – quase sempre. E assim o foi por um longo período.

De fato, mesmo nesta reta algumas intempéries modificam o entorno. Numa destas o rapaz teve medo. Um medo contido, tímido, camuflado por sorriso forçado, infundado. Enfim, um começo. Não foi chuva o que viu. Nem um céu nublado, nem um sol radiante. Apenas um nascer solar típico, mas encarado com outros olhos. Deixou-se levar pela música das cores, sentindo uma aceleração incomum no peito. Pensou em doença logo de cara. De joelhos desejou que aquilo parasse e tudo voltasse a inércia anterior, ao silêncio. Ali no chão viu a terra molhar-se, sem uma gota de chuva, sem nada. Procurou até dar-se conta de que dele brotava uma água estranha, doce, não salgada. Os olhos embaçados procuraram distinguir algo na paisagem estranha e nada aconteceu por um longo tempo.

Viu a terra secar. Viu o sol chegar ao topo. De pernas bambas apertou o passo, mas logo se deu conta – havia outros caminhos, outras estradas, outras terras. O medo foi total. Uma força o chamava para trás, enquanto outras tantas o empurrando para frente, cada qual para um lado. Novamente chorou.

Não demorou a pegar-se avaliando cada caminho intimamente. O chão batido, a grama verdejante, a calçada de pedras estranhas, s árvores, as cercas e as planícies distantes. Tudo parecia ter um significado misterioso e apetitoso. Tomou fôlego, escolheu uma das trilhas e caminhou.

Na inércia vive a depressão. Na inércia faz morada a cadência da alma. Mover-se e refletir a cada passo torna viva a coisa chamada Ser Humano.


Alexandre C. Martins - 09 de julho de 2009