Conto Premiado

"45 Minutos"
- TERCEIRO LUGAR, CATEGORIA CONTO - CONCURSO DELICATTA III - Leia o texto.

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Acabo de fazer uma reforma no layout do blog. Agora os frequentadores poderão deixar recados no Mural de Recados, ou enviar mensagens privadas para meu e-mail diretamente do site. Tudo isso na barra lateral. Espero que gostem!

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45 minutos

Duas horas

Tudo se apaga, não vejo coisa alguma, apenas ouço minha respiração oral, enquanto o ar quente emanado desta me irrita profundamente. Um calor intenso se espalha por sobre meu corpo - como que em chamas. Até mesmo o odor de carne humana queimada chega à minhas narinas, causando-me náuseas. Meus pés imóveis, enlaçados por algo realmente forte, bem como minhas mãos, compõem a cena perfeita de um crime em potencial. Sentado em uma cadeira de plástico – bamba – imagino apenas o pior, e o pior nem chega perto de ser a morte.

Enclausurado numa armadilha de medo, pego-me a sugerir façanhas de fuga para minha mente conturbada, mesmo que meu corpo jamais obedeça a qualquer estímulo de liberdade - tão preso que está. E mesmo que nada escute, além dos sons de meu próprio cansaço, sei que em breve, por alguma barulhenta porta de ferro, um alguém desconhecido fará caminho e se encarregará de mostrar-me meu destino. A ilusão é minha única aliada e também a pior inimiga.

Solidão. Num breve momento, enquanto apenas imagino o que se seguirá, uma saudade de pessoas que jamais conhecerei, de lugares que jamais verei engloba meus pensamentos. O tempo segue em frente, sempre linear – tão somente lá fora, pois aqui o tempo não existe e a angústia reina soberana em seu trono de ouro. Sinto-me como o sem graça bobo da corte, que não mais sendo útil, logo na primeira oportunidade, perde a cabeça.

Duas e meia.

Passos, não apenas de uma pessoa, mas de várias. Um sapateado incomum em meio a tanto, anterior, silêncio. Uma música mortuária ou uma dança em torno de meu próprio túmulo, ou seria apenas o abismo ao qual sou arremessado? Daqui pra frente vejo tudo claramente. Talvez tenha sido pego por engano, mas quem me ouviria falar por debaixo desse trapo que me cobre a cabeça por completo? Antes mesmo de qualquer brincadeira mortal começar, sinto as dores de uma pancada imaginária, tão intensa que quase real. Aperto meus olhos com força, enquanto meu corpo treme, deixo-me inclinar para frente, o homem diante da guilhotina, o público grita por sangue – meu sangue!

Uma hora atrás estava apenas na rua, caminhando para casa, num dia de sol como outro qualquer. Não imaginei que pudesse ser o último de minha vida, não antes daquele carro parar diante de mim e dele dois homens saírem, agarrando-me rapidamente. Mal pude pensar em pedir ajuda, na verdade nem pensei. Deixei que minhas atividades ilícitas traçassem meu caminho, e todas elas o fazem, sem dó ou piedade.

Os passos continuam e uma voz ecoa no local fechado e úmido, propício para um fim cinematográfico. Tiram-me o capuz e quando penso em dizer algo, acabou. O rosto branco, escondido por uma barba espessa e sombria, é o autor do único disparo.

Duas e quarenta e cinco

Tudo está claro, vejo ao meu lado um corpo avermelhado, aberto e sem vida. Uma mulher me olha atentamente, e num minuto reconheço o rosto de minha adorada esposa. Tão doce, suave, agora tomada por uma rigidez inexplicável, a feição séria e inerte não me deixa dúvidas. Minhas roupas luxuosas agora são nada naquele chão imundo e minha vida jaz ali mesmo.

Um homem deixa de existir, uma mulher ganha seu prêmio merecido por tão meticulosa façanha. Um morto fala o que não poderia falar e uma música horrenda toca – a água brincando com a canoa da morte!



Para saber mais sobre o livro Delicatta III - paulbathory@hotmail.com

Alexandre C. Martins - 30 de agosto de 2008

4 comentários:

elisasalemherrmann disse...

Maravilha de conto!

Jessiely Soares disse...

Perfeição!!!

"o poeta da verdade" disse...

Parabéns pelo blog , pois o texto já li no livro da antologia que também participo. Muito bem elaborado o caminho de um verdugo em busca de sua vitima no conto que há e muitas vezes nos situamos assim , como vitimas dos nossos atos... Um forte abraço e sucesso na caminhada!

Sagital disse...

contei até 10